Quarta-feira, Novembro 25, 2009

DITONGOS





572


No ponto da padaria subo no 572. Dentro, um senhor de idade e aparência frágil dorme, enconstado como um pão velho contra o vidro da janela, suando enquanto as luzes dos postes que passam pelo seu rosto fazem brilhar as gotas de suor na testa e realçam os pequenos e bem cavados triangulos de pele nas bochechas, como tortillas de doritos em miniatura cravadas numa pasta de grão de bico em fim de festa.

O cobrador, passeando um sorriso desocupado, sem muito o que fazer, procura com quem conversar, com uma cara benevolente de quem faria no mínimo um gesto amigável de ok com o polegar caso alguém lhe pedisse uma paradinha fora do ponto. Mas pelo aspecto dos passageiros, que mais pareciam estar derretendo aos poucos nos assentos, ninguém conseguiria descer antes do terceiro giro do ônibus pela cidade, ou faria outra coisa além de transpirar com cara de sofrimento ou de se abanar com cara de alívio. Muito menos eu, mero expectador, com meus fones de ouvido, na expectativa de alguma brisa. Ele então mira atentamente o casal de estrangeiros pálidos sentado à sua frente, enquanto eu tiro os fones para ter a cena por completo: Vão descer aonde?

– Copacabana...

– Copacabana? sorriso malicioso do cobrador – Vai ter que trocar de ônibus! (faz o gesto giratório com os dedos e desce da sua cadeira para explicar mais de perto)

E conversa vai, conversa vem. Quando a mímica não dá conta, o cobrador pede emprestado o dicionário bilingue do casal: - Rio... wanderful, né? – Yes, wonderful! concorda o casal. Ele então aponta para o motorista e diz: - Ele, o motorista... (faz o gesto de quem dirige) – Yes, yes, the driver! esclarecem os gringos, entusiasmados – Yes, de driver! concorda o cobrador – So, o driver, é uma woman! (faz o gesto de desmunhecamento com a mão e abre um sorriso cheio de dentes). O casal se entreolha e ri, mais por comunhão antropológica do que por entendimento. O tom do humor lhes escapa um pouco. O cobrador então repete, não por perceber que o casal não entendeu por completo a brincadeira, mas porque faz parte da sacanagem, curta, contá-la duas ou mais vezes, pra fixar. Vale dizer que ele estava simplesmente encantado em entreter o casal. E completa, apontando novamente para o motorista e depois para o próprio cucuruto:
– Ele, o driver... É careca e também é woman! e gargalha, acordando o senhor que aparentemente dormia, e que para surpresa de todos solta uma tremenda gargalhada depois de limpar a baba com a manga da blusa – Bald, bald! traduz o casal, enturmado. O motorista, passando uma toalhinha na testa e rindo, diz: – Avisa aí que a gente deixa eles num circular na praia.





(Arnaldo, o "toalha", é um dos suspeitos procurados pela polícia)



Não tem melhor não?


Chuviscava na autoestrada Lagoa-Barra. O dia era cinzento. A Lagoa nesse dia parecia ser não só água e lodo e peixes invisíveis e marolas irregulares e prateadas, parecia também ser de pedra. Uma grande cuia virada criando uma estufa de tédio, ou algo inconcreto assim, talvez mais besta ou mais preguiçoso, era a tarde. Para os especialistas em ansiedade, o termo correto para esse edredom é um saco. Resolvi então apelidar as três cabeças das poltronas à minha frente de “turma do deixa disso” (isso sendo o foco, a atenção). Eram duas arredondadas e calvas e uma adornada com um negríssimo rabo de cavalo curto e compacto. Distração para quando acaba a pilha da música, aquela guitarra safadíssima. Nos tempos do colégio era assim: Tenho que ver vinte gostosas até chegar em casa. Não encontrando, água virava vinho: gorduchas e mancas se tornavam princesas descaradas.

Há de ser dito que eu não esperava absolutamente nada daquela tarde, nenhuma surpresa, muito menos o desviramento da grande cuia. Talvez somente a escapolida do elástico que prendia o rabo de cavalo na terceira cabeça, que estalaria na careca da segunda cabeça? Seria divertido, pensei, exalaria cheiro de neutrox. Talvez um súbito desafogamento do trânsito?

Nada disso acontecendo, imaginei um vendedor serelepe numa loja de instrumentos musicais, que, ao ouvir os pedidos dos clientes, repetiria o nome do instrumento fazendo seu som característico com a boca... Bem, melhor falar da curva. Bom, houve uma curva, e chuviscava menos no canal, e tinha um carro atolado no canal. Um carro no canal! Finalmente alguma coisa!! E a motorista do ônibus, uma mulher com cara de poucos amigos, comenta, categórica: - Só homem vendo... que vergonha...Tudo vagabundo, sem ter o que fazer, tst tst tst... E o cobrador responde: Olha ali umas mulheres, tudo parada...Ó lá, os homens estão ali pra ajudar no guindaste, no carro... Boa tarde madame, não tem menor não? Tô sem troco. Vai descer aonde?

- Tu qué é me derrubar. Mas aí te pego na curva, ó! provoca a passageira, uma jovem manca muito mal encarada que entraria facilmente no meu top 20 do dia – Né isso não! responde o cobrador assustado enquanto tira do bolso um maço de notas. Então a motorista larga o volante, levanta, e numa repentina aliança com a passageira revoltada, começa a estapear o coitado do cobrador. O ônibus estava desgovernado, o pânico reinava entre os passageiros, havia fogo, gritos, uma equipe do rj tv, máscaras de oxigênio caindo de cima das aeromoças, e eu só acordei quando já tinha passado do meu ponto. Limpei a baba na manga da blusa e desci.



Casal adolescente no Catete.¹ (em dia ensolarado)

- Sabe o que você é quando você anda?
- O quê?
- Linda!
- É mesmo? ela responde corando
- É! Caralho, o 572! Corre!!

¹ Sobre o incidente com o pudim de tapioca, ver English, op. cit., p.68 (apud_redux_)




Cem anos de audição

O vô sempre contava essa história delirante. Depois de tantas e tantas vezes contá-la para os netos, para os namorados e namoradas das netas e netos, para as mulheres e maridos dos filhos e filhas, para a baiana do acarajé predileto, para os entregadores de pizza de berinjela ou de colchões ortopédicos, para as visitas solitárias ou acompanhadas ou para quem mais aparecesse e o encontrasse sentado em sua confortável poltrona reclinante da sala (hoje disputada a tapas e beliscões fraternos entre os incontáveis filhos dos netos), decidimos gravá-la. E quando a ouvimos, alguns soltam fiapos de peidos finos enquanto riem, o que diverte bastante, outros ficam com os olhos vermelhos de cerveja e comoção, outros gargalham e arrotam sabor de carne, o que afugenta os mais sensíveis e leva ao delírio a juventude gritante que pede mais, e mais licor de jenipapo para as namoradas e ficantes ou para a Vânia, que trabalha na casa há décadas e também bebe na história. Às vezes os amigos da família escutam, outras vezes as namoradas e namorados das amigas e dos amigos dos filhos dos netos, outras vezes os entregadores de comida chinesa com cara de fuinha, e assim sucessivamente...




Dois e trinta na pastelaria

- Opa!

- Se você quer fechar os poros da pele tem que usar esse creme, menina!

- E aí?

- Ai, mas é muito caro!

- Tava lá com o Benga. Ele disse que vai comer muito peru no Natal. Falou que o índio da pastelaria vai dar muito peru pra ele de Natal. Tu não é o índio da pastelaria?

- Que nada, tá vendendo nas americanas, baratinho! Depois a gente passa lá e eu te mostro.

- Eu não!

- Gente... Olha que gato do outro lado da rua, e tomando sorvete!

- É sim, mermão! (abre a garrafa de coca cola e dá uma risada sarcástica)

- Lembra o jãojão, mas ficou tão gordo ele depois...

- E tu veio de lá andando? (serve uma coxinha)

- Cê não quer parar pra comer alguma coisinha não, querida?

- E eu vou dar mais dois e vinte pra empresário de ônibus? Venho andando que tá bom. Tô com tempo, minha aula é aqui do lado. Vê aquele joelho ali? Não, não, o de cima.

- Vamos, também tô com uma fome que nem te digo... E se não comer antes do curso vai ser dificil de aturar o Arthur falando...

- Que horas?

- Mas algum lugar com ar condicionado, né?

- Seis e meia. Ó, tenho ainda cinco minutos.

- Ofe corse!

- Tá atrasado. Aula de quê? Tô fazendo informática.

- Ali?

- O meu é inglês e informática.

- Ah, mas eu não gosto de empada, acho sem graça.

- Vai lá!

- E se a gente comesse um salgado na pastelaria? Loucura?

- Quanto que dá isso aqui?

- Ai, vamos?

- Dois e trinta.

- Oi moço, me vê uma coxinha e um joelho por favor? Mas é de agora, né? Tá fresquinho?

- Moça, fresquinho com esse calor só refrigerante, que tá na geladeira.




(as duas carecas do ônibus)


Explicação patafísica para o ato de se surpreender

- Professor! Porque algumas pessoas, quando levam um susto ou recebem alguma notícia inusitada, pulam, se contorcem bizarramente, derrubam copos ou quase deslocam o maxilar de tanto espanto?

- Porque a notícia causa uma pequena explosão de estímulos no cérebro de quem a ouve, Joana, e que pode se espalhar de maneira mais ou menos rápida e intensa pelo corpo. Pode ser uma avalanchezinha de nada, ou uma daquelas desastrosas, de soterrar snowborders e espetar bundas.

- Mas avalanches espetam bundas, teacher?

- FOGO!!! berra o professor desesperadamente

A aluna quica na cadeira e se dá por satisfeita, despenteada, enquanto a turma grita aflita.





(outro ângulo de Arnaldo, o "toalha")

Signifrito Figueirosa

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

BERCEUSE

Para GS

Une berceuse est une chanson douce destinée à aider les enfants à s'endormir. Il existe des berceuses chantées dans toutes les langues du monde.
Wikepedia francesa e sua definição para canção de ninar




Desde que voltara ao continente ela sentia esse cheiro de podre que vinha da baía. Ninguém mais parecia sentir. Não sabia se os outros haviam se acostumado ou se o cheiro que sentia vinha de dentro; de algum lugar de sua alma estragada.

Conhecia muita gente, mas à medida que reencontrava os velhos rostos, sentia um cansaço extremo. Estes rostos que lhe eram conhecidos, apesar do tempo curto de sua ausência, agora lhe pareciam outros. Ou o problema era todo dela que não mais se reconhecia nos rostos amigos de outrora? Tudo havia mudado. Ela era outra. E ainda se acostumando com essa outra dentro dela, que era ela, decidiu aceitar a amizade e o afeto de um estranho. Assim não ficaria com a desagradável sensação de ter somente para interagir os velhos rostos do passado que não eram mais os mesmos e ainda ter que fingir que nada havia mudado.

E foi desta maneira que ela se surpreendeu quando entrou na casa deste novo estranho. Não era a primeira vez que entrava ali, mas tudo no ambiente ainda tinha um aroma de novidade. Era bom um rosto que não a conhecia direito a recebendo em sorrisos sem condescendência. Era a terceira ou quarta vez que entrava naquela casa. Mas dessa vez todas as luzes estavam apagadas. Não eram amigos nem eram amantes. Eram dois estranhos precisando da companhia um do outro na tênue esperança de se reinventar. Havia encontrado outro exilado com suas mesmas necessidades.

No escuro ele a recebeu. Tocou sua mão com suas mãos quentes. Conduziu-a a uma das cadeiras da mesa de jantar. Ela sentou. Mal e porcamente a cumprimentou mas as mãos que a guiaram eram calorosas e ternas o suficiente para deixá-la segura. Apesar do inusitado ela tinha certeza que não corria perigo.

Em frente à cadeira uma tela de um computador portátil aberta iluminou finalmente o seu rosto. Ele pediu para que ela fechasse os olhos e colocou, sem que ela visse, um fone em seus ouvidos. Um ato um tanto paternal, pensou em um misto de inusitado incomodo e conforto pelo ato. É essa a música que andei te falando, sussurrou antes das notas suavemente formarem uma sequência harmônica e sutil. Sentiu uma sensação estranha, que pouco sentia desde muito tempo. Uma sensação de ser e mais nada. Uma sensação de que finalmente voltava a existir.

A música estava dentro dela, mas mesmo assim começou a perceber uma outra presença. Sua alma já não apodrecia na mesma velocidade. Abriu os olhos marejados e se deparou com os vivos olhos dele. Olhos vivos sobre ela. Olhos que tudo o que pediam era a sua aprovação a uma música que neste momento só pertencia a ela. Ela não podia negar o que ele pedia, mesmo que muito quisesse. Haviam olhos marejados estampando seu rosto para lhe delatar.

Os lábios dele mexiam. Ele falava, mas ela não conseguia ouvir. Não importava. A música estava dentro dela e ela sabia o que ele queria sem precisar entender as suas palavras. A cena dele falando sem emitir nenhum som que ela fosse capaz de ouvir até tinha um quê de cômico, o que a encheu de repentina ternura. Sorriu e fez que sim com a cabeça, concordando com todas as palavras mudas que ela só via existir.

Fechou os olhos novamente e por mais que sentisse a presença dos olhos dele sobre ela permaneceu assim. Era bom saber ser observada quando algo tão bonito entra dentro de você e mata a podridão quase irremediável em que se encontra a sua alma.

Ao final da música, ela retirou o fone dos ouvidos, agora com suas próprias mãos, sempre frias. Ele acendeu a luz que feriu os olhos dela. Tudo estava claro. Ele olhou para ela e sorriu. Ele sempre sorri de suas caretas de reação a situações inesperadas e essa claridade repentina não estava nos planos dela. Agora ambos sorriam embora existisse um choro que ela tentava prender. Não sabia se esse choro preso era melancolia ou alegria. Ele perguntou o que ela havia achado, ela permaneceu com o sorriso que era sincero. A música era linda, não havia dúvida sobre isso. Ele tinha toda razão.

A brisa da janela trazia o vento da baía para dentro da sala. Mais uma coisa estranha, a brisa agora cheirava a um delicado perfume de sereno. Agora ela conseguia ver que um dia as coisas acabam bem. Os sonhos finalmente viriam visitá-la na longa noite em que já havia se acostumado viver.

Barbara Kahane

Terça-feira, Setembro 01, 2009

Ao pé do ouvido das minhas paredes

Quem conhece o solo e o subsolo da vida, sabe muito bem que um trecho de muro, um banco, um tapete, um guarda-chuva, são ricos de idéias ou de sentimentos, quando nós também o somos, e que as reflexões de parceria entre os homens e as cousas compõem um dos mais interessantes fenômenos da terra. A expressão: "Conversar com seus botões", parecendo simples metáfora, é frase de sentido real e direto. Os botões operam sincronicamente conosco; formam uma espécie de senado, cômodo e barato, que vota sempre em nossas moções.
(Quincas Borba – Machado de Assis)


Os objetos inanimados de sua casa eram bem animados. Falava com eles e eles respondiam, reagiam, opinavam. Resquícios inconscientes de uma peça teatral escolar encenada aos dez anos de idade em que interpretava uma vitrola em uma casa repleta de objetos inanimados e nenhum ser humano. Escolheu esse papel para poder cantar, um sonho que já existia à época. Nos ensaios, como uma boa vitrola, ela cantava achando que assumia o papel esperado. Mas obtinha de resposta a risada unânime de todos os seus colegas que compunham o elenco, como se ela estivesse a fazer piadas. Risadas do gorducho relógio ruivo da terceira série, risadas da estante vara pau da quinta série. E sua interpretação, que tinha por intenção primeira emocionar os corações com sua bela voz, acabou direcionada a um tom mais cômico que muito a magoou quando a reação do auditório repleto de pais em gargalhadas histéricas selou seu destino artístico. Desde então jamais subira em um palco novamente. Nem para cantar, nem para interpretar. Suas encenações, agora que morava só, eram para seus móveis e objetos, que sempre respeitavam com o devido decoro o talento que ela sabia existir, mas que havia sido rejeitado pelas pessoas.

Quando se mudou para um apartamento seu foi um regozijo só. Finalmente tinha ao quê confessar seus pensamentos mais íntimos - dos sórdidos aos nobres - sossegadamente. Na casa em que vivera toda a vida não tinha com o quê se abrir. Pai, mãe, dois irmãos homens, uma mulher e uma empregada doméstica residente eram piores do que mil portas. As poucas palavras trocadas com essas pessoas feitas de carne e osso (mas pouca alma) eram as mais vazias: “bom dia”, “boa noite”, “me passa a manteiga, por favor” “feliz aniversário papai” “me perdoe mamãe pelo boletim todo em vermelho”. Dentro de seu quarto, que dividia com a irmã, quando se encontrava sozinha via um estranho, mas reconfortante prazer em conversar com as bonecas. Até o dia em que as bonecas foram doadas a um orfanato (sua mãe achava que estava grande demais para esses tipos de fantasias). Chorou e descobriu pela primeira vez o colo do travesseiro que desde então passou a assumir o papel de amigo mais fiel. O amigo que, com seus conselhos sempre certeiros, lhe transmitia uma verdadeira sensação de vida, coisa que não alcançava com o convívio diário com a família zumbi.

Sair para rua diariamente era um verdadeiro sofrimento. Tinha a seus acessórios para recorrer, mas tinha que ter cuidado para não ser confundida com louca pelas ruas, aos bate-papos com seus botões. Mas o pior, o pior mesmo, era desviar das pessoas em qualquer trajeto que tomasse. Era lidar com o caixa do banco, com a caixa do mercado, com o porteiro do prédio. Às vezes, para não ouvir as asneiras que por acidente captasse, saia de fone conectado ao mp3 player e cantava um canto baixinho, para se proteger de palavras arremessadas ao vento que pudessem eventualmente lhe atingir e para não correr o risco de causar o riso involuntário a quem por acidente acabasse ouvindo-a em seu cantar triste.

Não que não gostasse de pessoas. Apenas não sabia como se portar na frente delas. O medo que tinha de não alcançar as expectativas dos poucos que calhava conhecer (no trabalho, por exemplo) era equivalente à certeza de saber também que ninguém superaria as dela. Sabia sorrir amarelo e ser bem educada e no escritório repetia a rotina tantas vezes feita em casa nos anos de formação e aprisionamento: “escritório de advocacia, boa tarde”, “Dr.Gomes mais um café?” “queira aguardar, por favor. Palavras vazias para passar o tempo.

No final do dia chegava em casa, preparava um sanduíche e tomava banho. Ia fazendo isso contando seu dia para o quê estivesse em volta. Nunca houve desinteresse. Após o banho escovava os longos e pesados cabelos. Fazia penteados extravagantes muito aprovados pelos Espelhos, dançava para o Alto Cabideiro que se oferecia no bailado, cantava e cantava para Escova que para agradá-la se fazia de Microfone, agradecia em reverencia ao Sofá e Poltrona, ia dormir seduzida pelo Seu Cobertor.

Parecia uma vida triste e sozinha, mas não era. O pensamento antes do sono era sempre o mesmo: pobre daqueles que depositam em ouvidos alheios todas as expectativas de uma vida. Ninguém deveria esperar tanto do outro. Nos afundamos em cobranças que inventamos exigir à desculpa de ser felicidade e depositamos o potencial de sucesso desse estranho sentimento numa pobre alma como a nossa.

O Travesseiro, velho e sábio companheiro, então a ninava para as desventuras do próximo dia. Às vezes ela chorava baixinho. Ainda assim dormia sempre tranqüila. Suas paredes não tinham nada de traiçoeiras.

Segunda-feira, Julho 27, 2009

apresentando renata azzi

Renata,

Texto bonito esse o seu.

Não vou me alongar para a apresentação não ficar maior que o texto

É tão bom ver o pescotexto renascer com suas palavras. Ainda que poucas. Palavras renatas.

Muito obrigada pela contribuição e seja sempre bem vinda!

B.K

Diversão pura.

O que se pode fazer quando é madrugada fria, e se tem febre?
Sair para tomar um ar. Pensamento vira delírio e eu tinha muito o que pensar. Tinha to -dum quebra cabeça (ou dois), um quebra cabeça (-dura) amoroso, e que, aliás, my dear, tenha dó, era o mais desinteressante de todos os tempos.
A chuva da semana acumulou-se nas muitas poças d’água pelas ruas. Poças repetindo o céu, o poste e os prédios above, o céu, o poste e os prédios above, monotonia ad aeternum.
Obcecou-me de improviso o impulso de juntá-las, todas as peças-poças, a ver se formariam uma figura mais promissora, mesmo que fosse uma rua, assim, por exemplo: a sua. As poças, sem perseverança, sem intransigência alguma, veja, mudariam de figura automaticamente quando deslocadas, sem crise: “whatever...tssh!”.
Fascinante propriedade!

E ainda ri tresloucadamente quando pensei que elas nunca mais se lembrariam de mim depois que eu sumisse da vista.Gargalhei, até. Eu, não: meu reflex.
Esta sarjeta é tipo uma rave...

(e eu, na mó ondinha de poça d´agua...)



Renata Azzi

Quinta-feira, Março 19, 2009

The front page



A Galinha, uma tira brizolista, zomba de Clara enquanto um rato luta luta livre bezuntado de calda de chocolate com três jovens baratas eriçadas.

- Tá mexida, filha? Esse mundo te janta!
- Mexida uma ova! Me viro!
- Casca grossa, ela, né não, Cavalo? - aponta.
- É, coloca de volta na cela dos carecas, por desacato!
- Boa! ... E ... e, ó lá, nem responde ... Tá vendo? A cadela é uma daquelas que no cio lia o russo na cela. Tacabando com as cabeças de toda porra de preso que sai daqui! (Gargalha) hehe ... porra de preso que sai ... haha (cafunga o ar empinando a penosa nareba aflita e tremilicante como se bastasse apenas um ligeiro afrouxamento da atenção muscular para que a pequena catástrofe natural da flatulência ritmada mudasse a cadência da risada de porco que a Galinha, a tira, dava, e que o Cavalo, o tiro, dava também) e preso que ... cai ... haha - .... - e sai.
- A algema! Tira de mim! Cocoricó! - berra Clara.
- Solta ela, Cavalo! – geme Galinha.

Na cagada da Galinha, Clara dá um coice em Cavalo, que cai de beiço na sobremesa das dolichoderus gibbosus. Mancha no carpete. Cortina. Mancha na cortina.


Anedota sem escolta

De cima, Gata assiste à cena, pensa em pé, pensa em nada, nada como seu vestido flutua, e sozinha cambaleia no vai e vem de seus belos abdominais lesados e fáceis. Segurando a barra de ferro da varanda, sorrindo e olhando do seu P.O avançado para os rapazes abaixo, nos destroços da festa, sujos de pastinhas diversas e suados como espivitadas raparigas de um bordel de guerra que desfilam sem saber para a poderosa oficial na varanda entrecortada de faixas de luz no escuro.

Signifrito Figueiroa

Terça-feira, Fevereiro 24, 2009

AS TORRES DA PRAÇA

Três rapazes pedem a torre de chope dentro do shopping center. O sol castiga lá fora e a praça de alimentação bomba. A cada duas ou três mesas empilhadas de gente existe erguido esse espigão de líquido amarelo. Parece ser a nova sensação mudando sutilmente paisagem tão uniforme. Aqui não se fuma e o ar condicionado não dá vazão. Quem não bebe se atraca com um sanduíche gigante de uma famosa rede de fast food. E assim dois rapazes com suas bocas cheias de um Big Mega Super Plus com tudo dentro convivem em plena harmonia a dois palmos de distância de um casal e sua torre cheia da mais nova sensação do verão. O chope ali esquenta rápido e a economia de pedir a torre é de menos de três reais. O rosto do garçom entediado enchendo mais uma das torres numa serpentina do balcão do restaurante da minha frente não nega que ele prefere mil vezes ir e voltar com sua bandeja entregando um por um os chopes solicitados. E isso não tem absolutamente nada a ver com os trinta centavos que ele deixa de ganhar a cada sete minutos perdidos na enfadonha obrigação de encher a torre para mais uma mesa sedenta.

Eu, também cheia de tédio, tenho que esperar. As ordens foram essas e há quatro dias fico uma média de quatro horas sentada numa das mesas dessa praça de alimentação sorvendo expressos e observando. Não sinto fome e tudo o que eu devorei até agora foram quatro livros. Acho que estou começando a levantar suspeitas, pois desde ontem os garçons me olham com olhos desconfiados. Eu só tomo café e observo entre um e outro capítulo que folheio dos velhos clássicos que eu trouxe comigo nessa minha missão. Às vezes saio para fumar um cigarro, mas sempre volto ao meu posto. Quando vejo que tomaram a minha mesa já de estimação e tão estrategicamente escolhida eu me irrito. Da última vez que isso aconteceu, coisa de duas horas atrás, a moça do quiosque do café percebeu e num ato de surpreendente e inesperada cumplicidade (será que ela sabe?) me serviu um expresso sem eu mesma solicitar. Tomei-o em pé assistindo as duas adolescentes sentadas na minha mesa que acabavam com seus sorvetes de baunilha na casquinha do fast food e riam risinhos frenéticos enquanto um jovem de jeans rasgados passava por elas.

Agora, de volta ao meu lugar, observo que acabou de chegar numa alegre e descontraída mesa à minha frente uma torre de um tipo que eu ainda não havia tomado conhecimento. Uma torre cheia de um líquido negro. Imponente. O chope escuro, servido assim dessa maneira, me parece estranhamente sedutor. Um dos rapazes sentados na mesa pensa que meu olhar instigado é para ele e sorri maliciosamente. Cogito pedir um chope para mim, mas não sei se devo. O casal que vive na mesma situação que eu e que se sitiou na mesa oposta ao lado da praça de alimentação escolhido por mim é sempre muito comportado. Ninguém sabe o que nos trouxe aqui e eu sei que eu com meus hábitos de sorver expressos, devorar livros, sair para fumar cigarros e agora escrever autisticamente nesse bloco pautado levanto muito mais suspeitas do que o casal que ora divide um milk shake de morango, ora uma pizza portuguesa, ora bebe sucos de polpa congelada, ora lê o jornal local do dia, ora conversam sobre sei-lá-o-quê e ora até dividem o silêncio dos enamorados simulando olhares lânguidos um para o outro. Eu, por outro lado, estou sozinha nessa missão e tudo o que me resta enquanto Eles não chegam com as novas diretrizes é contar as torres de chope que desfilam na minha frente e observar o movimento tão uniforme e ainda assim bizarramente humano da praça de alimentação desse shopping center. Enquanto isso eu sorvo expressos e devoro clássicos como se fossem descartáveis, como tudo aparenta ser a minha volta neste exato momento. Com sorte uma indigestão me tira desse jogo.

Barbara Kahane